Cansaço da imagem: como as redes sociais fragmentam a identidade e a autoestima
- Manoela Nascimento

- 18 de ago. de 2023
- 3 min de leitura
Atualizado: há 3 dias
A baixa autoestima na contemporaneidade não é mais um fenômeno restrito às experiências privadas ou ao núcleo familiar; ela foi exportada para o domínio público das redes sociais. O que antes era uma insegurança interna tornou-se uma métrica quantificável por meio de curtidas, visualizações e engajamento. Nesse cenário, a pessoa deixa de ser alguém que vivencia experiências para se tornar um curador de sua própria imagem, submetendo sua autoimagem ao julgamento incessante de uma audiência invisível, mas onipresente.

O sofrimento gerado por essa dinâmica reside na dissociação entre a vida vivida e a vida exibida. Ao selecionarmos apenas os fragmentos mais reluzentes da nossa existência para compor o feed, criamos uma persona que, ironicamente, acaba por nos intimidar.
A pessoa passa a se sentir um impostor de si mesmo, temendo que a "imperfeição" de sua realidade cotidiana (o cansaço, as dúvidas e o vazio) seja descoberta. Esse esforço contínuo para sustentar uma fachada de plenitude consome uma energia psíquica imensa, deixando pouco espaço para a aceitação do Eu real.
O espetáculo da comparação e o desejo
Diferente da comparação saudável, que pode servir de inspiração, a comparação nas redes sociais opera sob a lógica do espetáculo. O usuário não se compara com o outro, mas com o "recorte idealizado" do outro.
Ignora-se que, por trás de cada imagem perfeita, existe uma construção proposital.
O resultado é um sentimento de insuficiência crônica, causando um sentimento de que sua vida é desinteressante, seu corpo é inadequado e suas conquistas são irrelevantes diante da "perfeição" alheia que desfila na palma de sua mão.
Na perspectiva analítica, a pessoa passa a desejar não necessariamente o que o outro tem, mas deseja ser o que o outro aparenta ser.
Essa busca por uma identidade emprestada anula a singularidade. Ao tentar mimetizar os padrões de sucesso e beleza ditados pelo algoritmo, a pessoa se afasta de seus próprios desejos autênticos, perdendo a capacidade de validar a si mesma a partir de seus critérios internos e tornando-se dependente de um feedback externo que nunca é suficiente.
O algoritmo da insegurança e a busca por pertencimento
As plataformas digitais são desenhadas para explorar nossas vulnerabilidades psicológicas. A necessidade de pertencimento, um dos impulsos humanos mais básicos, é sequestrada pela lógica do algoritmo.
A baixa autoestima é alimentada por esse ciclo: a pessoa se sente insegura, busca validação nas redes, não obtém o retorno esperado (ou o obtém de forma efêmera) e retorna ao estado de insegurança, agora agravado pela comparação. É uma fome emocional que se tenta saciar com estímulos vazios, já que a solidão digital surge justamente desse excesso de conexões superficiais.
Podemos ter milhares de seguidores e, ainda assim, experimentar uma solidão profunda, pois não nos sentimos vistos em nossa verdade, apenas em nossa performance.
A autoestima, que deveria ser um solo firme de autoconhecimento, torna-se um terreno movediço, dependente das tendências do momento. O medo de ser "cancelado" ou ignorado gera uma autocensura que impede a expressão das vulnerabilidades, que são, justamente, os pontos de conexão humana mais genuínos.
Recuperando o olhar: o papel da análise
O caminho para desconstruir essa tirania da imagem passa pelo resgate da subjetividade. A psicanálise oferece um contraponto essencial ao imediatismo das redes sociais ao propor um tempo de lentidão e introspecção. No consultório, o paciente é convidado a "desligar a câmera" e olhar para o que sobra quando a performance termina.
Trata-se de um processo de desidealização, onde se aprende que a perfeição é uma categoria estética, não humana, e que a beleza da vida reside justamente em suas rachaduras e imperfeições.
Fortalecer a autoestima significa desenvolver a capacidade de sustentar o próprio olhar sobre si mesmo, sem a mediação de filtros ou algoritmos. É entender que o valor de uma pessoa não pode ser medido por métricas de popularidade, mas pela profundidade de seu contato com a própria verdade. Ao reduzir o ruído das comparações externas, fica possível começar a escutar a própria voz, transformando a necessidade de aprovação em um exercício de autoafirmação e liberdade.
Já pensou quanto da sua energia vital está sendo gasta para sustentar uma imagem que não é realmente sua? Por que não se mostrar como é de verdade? Se essa pergunta ressoa em você, talvez seja o momento de iniciarmos um processo de análise.



